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Recalculando rota

Olhar a vida de cima, tipo um mapa de navegação, pode servir para alguma coisa. Traçar as rotas já feitas com suas curvas, paradas, retornos, de onde saiu, para onde foi. Isso pode ser um exercício para chegar conclusões surpreendentes. Ontem foi assim.

No trânsito, indo para a aula de guitarra, depois de ter passado o dia nos livros para a prova de sábado, esse mapa aconteceu em mim. Virei aquela setinha de aplicativo, que vai para lá e para cá, nos caminhos que a vida fez. Numa fração de segundos, me dei conta que já tinha tido um outro dia igual a esse, em 1980.

Decidi fazer Filosofia porque queria ser “cabeça”. Sentia que mundo era diferente do que a gente vivia na casa do papai e da mamãe e que o segredo estava nos livros, escondido. Quase apanhei quando achei um do Schopenhauer – As dores do mundo. Queria mesmo era ser estranha. Para completar, decidi aprender música.

Aos sábados, depois da faculdade, atravessava a cidade a pé e passava a tarde descobrindo a escala de blues. Fiz isso por dois anos, até ficar sem dinheiro para pagar o curso, tranquei. Das aulas de guitarra, com as cinco notas que aprendi, montei uma banda que chegou a fazer sucesso. No palco, não sei por que razão, ficava tonta. Talvez o som alto ou as luzes piscando, me fazia rodar. Enfim, não deu e foi fim de carreira.

A história seguiu por onde tinha que ser, aprendendo, trabalhando, falando sem parar. Tudo certo, tirando um sentimento pequenininho escondido que me enchia os olhos sempre que via alguém tocando, uma loja de instrumentos ou um bom papo filosófico. Não sabia a força gigante que isso tem dentro da gente.

Trinta anos depois, cá estou, a recalcular rota e na mesma cena. A filosofia me trouxe de volta para as aulas e a música me tomou para a mesma escala. A diferença é que sei muito bem quem está no comando agora. Deve ser esse o mapa da mina. Vou ficar por aqui. A vida sabe muito bem o que quer da gente.  

Vamos pegar a Schopenhauer – sentido BB King.  Hoje vou tocar um blues inteiro, sem escalas, nota a nota para aliviar essas dores do mundo.

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Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

2 Comentários

2 Comments

  1. Eloisa Fernandes

    05/04/2019 em 18:09

    Lindo texto Linda menina… vivemos construindo sonhos com o desconhecido enquanto crescemos… a vida se alicerça sobre muita filosofia, musica esrutural, sonhos e cor de acabamento… gostoso ler sua reflexão😍

  2. Marcos Morais

    07/04/2019 em 11:14

    No mundo perdido, seus textos nos dão a rota!

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