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Resistindo à tentação

Quem resiste a comprinhas durante uma viagem, que atire a primeira mala. Ou a mochila. E tudo começa antes mesmo de embarcar, porque os aeroportos se transformaram em verdadeiros shopping centers. Afinal, como não se encantar por aquela bolsa linda e superbaratinha? Ou o perfume – um dos seus favoritos – que está in sale no Freeshop. Pra não sucumbir, o jeito é passar por lá, pegar o tester, dar uma borrifada (bem grande) atrás da orelha e seguir em frente. Além de cheirosa, vai economizar uma pequena fortuna, convenhamos. Saguões de aeroportos são armadilhas terríveis. Se você não está atrasada para pegar o voo, melhor pegar um livro e tentar se concentrar na leitura. Caso contrário, a tentação é imensa. E, se puder, leve matula (não sei como se chama hoje, rs), um lanchinho básico. Principalmente quando a maioria dos voos de Campo Grande tem longas escalas e conexões. Em Guarulhos, por exemplo, um suquinho de nada pode custar os olhos da cara. Café com pão de queijo? Esquece. Respire fundo e procure pensar em outras coisas. Pode, por exemplo, pensar em carboidratos. Que vai lhe fazer mal durante a viagem. Sei lá, inventa, crie.

Viajar de férias é igual reforma de casa: sempre vem aquela frase “já que…”. E se você vai para o exterior – ufa! Que Deus lhe acuda. Porque quando você atravessa a parte internacional, pode dar adeus para Catitu. Primeiro porque a gente se sente o máximo, segundo porque todo mundo capitalista sabe que você se sente o máximo. E, claro, tiram proveito disto. Não importa se você vai numa excursão baratinha (daquelas que passam em quinze lugares em uma semana) ou se vai para a Tailândia de executiva. Atravessou os limites do aeroporto com um passaporte na mão, você é um passageiro internacional. Se sente chique no último. E dê-lhe cartão de crédito. Se não ficar esperto, você já chega no destino devendo.

Depois de algum tempo viajando você acaba ficando um pouquinho mais esperto. Mas não muito. Recentemente estive na Colômbia, viagem programada, econômica, com único objetivo de fazer roteiros culturais. Pesquisando sobre o País, mais precisamente Bogotá e Cartagena, antes de ir, descubro que na capital da Colômbia as compras são quase inevitáveis por conta dos baixíssimos preços. Não sei bem o motivo, mas até as lojas de grifes têm preços diferenciados por lá. E como todo turista, depois de um certo tempo em museus, galerias, igrejas etc. uma hora você pensa: uma passadinha no shopping bacana só para ver, não fará mal algum.

Nas duas cidades que visitei, ambas repletas de coisas lindas, usei um truque eficiente, para evitar as armadilhas das compras: cada vez que meus impulsos consumistas se agitavam eu acionava o seguinte pensamento: “Preciso mesmo disto? Que diferença este objeto vai fazer na minha vida?”. Confesso que este mantra é à prova de muito batonzinho e bolsinhas inúteis. Porque no fundo, a gente compra quase por obrigação, para se sentir feliz por alguns momentos. Por isto fazer esta pergunta sempre que se sentir numa situação de risco é fundamental. Ela funciona. Minha bagagem de volta foi – quase – a mesma que levei. Só não resisti a alguns pacotes de café – o melhor do mundo, e alguns “alfinetes” (lembrancinhas, gente, rs). Nada que uma sacola – de mão – não resolva. Também não resisti a uma réplica (vinte reais) de Botero, um artista colombiano maravilhoso. Mas resisti, bravamente devo dizer, a um exemplar da primeira edição de “Cem anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Márquez, meu escritor favorito. A Colômbia é um país encantador, colorido, simpático, civilizado e, sim, muito barato. O que me salvou foi o mantra.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Linda

    12/07/2019 em 10:31

    Viajei com vc e resisti a tudo juntinho!! Boa reflexão de viagem 🙂
    Parabéns!!

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