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Será que precisa de cerol?

Essa semana descobri que o quintal da nossa infância é recheado de respostas para várias questões. Coisas que a gente sente quando adulto e nem se dá conta. É dali que brota tudo, do amor à dor, do medo à coragem, o apego ou desapego. Visitar na memória algumas coisinhas dessas, vale a força de mil rezas quando o assunto é se entender.

Do nada, viajando na lembrança, fui parar em 1978. Eu e meu irmão tínhamos a Montanha do Eco – um monte que era só nosso, cheio de pé de mamona, lindo, imponente, onde nossos gritos podiam até mudar de bairro porque tudo ecoava e nos tornava seres encantados. Passávamos horas ali para soltar as pipas que fazia com perfeição e eu só podia ficar olhando porque era menina. Um dia, com as sobras de papel, ele fez uma para mim. 

Nesse fim de tarde, voamos. Cada um com a sua pipa e aquela linha que leva longe aquele desenho no céu azul, fazendo uma dança sublime com o vento. Um momento de amor tão intenso que continua vivo aqui, agora.  

Foi magia até a hora em que outra linha cheia de cola e vidro moído atravessou meu céu e mandou meu momento de beleza para os ares. Flutuou longe. Em segundos de silêncio até que eu percebesse o que tinha acontecido, meu irmão já tinha corrido montanha abaixo, segurando a bermuda, em desabalada carreira, atrás do malandro que poderia ter feito aquela maldade comigo.

Voltou com o Solivan agarrado pela camisa. Garoto de uns 14 anos, roupa cheia de lama e com o carretel de linha mais assassino que nosso bairro já viu. Ele jogou o menino no chão, pisou no pescoço e aos berros – Linda! Dá um soco nele! 

– Eu? cri cri cri (silêncio) 

  Eu… não tenho coragem! Solta ele! 

– Ele derrubou sua pipa! Bate nele! 

– Eu? Cri, cri, cri (silêncio) eu…não tenho…

Numa conclusão de olhares, soltou o menino, fomos para casa – eu, ele a pipa dele e a minha linha.

Esse soco que ainda não nasceu, vez em quando dá sinal de vida em mim. Só essa semana devo ter encontrado uns quinze Solivan por aí e sigo voltando só com a linha para casa.  Tem coisa na vida que irmão pode até ajudar, mas é a gente mesmo que tem que aprender. 

Acho que preciso aprender a fazer cerol. Ou parar de soltar pipas.

Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

7 Comentários

7 Comments

  1. Ana Flavia

    29/03/2019 em 12:15

    Saudade de bolacha de maisena com requeijão.

    • Linda

      31/03/2019 em 12:20

      Bora comer isso soltando pipa po

  2. Silvia

    29/03/2019 em 17:31

    Aí q história linda … cadê eu nessa história ? Estava com estilingue e bolinhas de mamona kkkk eu lembro da montanha de eco e as mamonas … voltei ao passado e me encantei com sua história te amo bocaaa 🥰

  3. Adriana Alves

    30/03/2019 em 09:29

    Quanta sensibilidade Linda, ameiiiiii!!! Parabéns 👏👏👏😘

    • Linda

      31/03/2019 em 12:21

      Que bom saber que vc gostou 🙂

  4. Gabriel Barbosa

    30/03/2019 em 11:51

    kkk XD

  5. Candeca

    04/04/2019 em 09:35

    Não paro de pensar no cheiro de PAZ misturado com o despertar do banho gelado e arrepiante. Avise-se nos na próxima publicação. BJOS.

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