Que a vida acontece nos contrastes aprendi na filosofia.  Gostei da ideia de organizar as coisas em pares de palavras como claro-escuro, bom-mau, legal-chato, gosto-não gosto. Sinto que é entre uma e outra, dentro desse hífen aí, que a coisa toda acontece. A magia de viver nesse mundo gostoso-ácido-amargo e o prazer que é poder ter tempo para ver o tempo, em linhas tão opostas. E vez ou outra me pego pensando qual seria o contraste para a palavra Beleza. Seria Feiura? Acho que não combina. Sabe, passo dias da vida a pensar nessas coisas, horas a fio. Sábado passado foi um desses dias em que vivi demais, se é que para viver existe alguma medida.

Lisi queria me mostrar o Ribeirão da Ilha, em Floripa. Ainda na parada do carro vi que era um lugarzinho histórico, desses encantados, vila com casinhas preservadas, arte por cada canto, cores, cheiros. Céu azul-laranja, silêncio-barulho, passado-presente, um desfile de contrastes. Seguíamos pela via em direção ao restaurante, quando paramos frente a uma árvore tão linda que nem vou descrever para não estragar a imagem. Uma coisa imperiosa, colocada diante de um mar tão tranquilo que fazia flutuar pontinhos prateados. Fotografia assim cresce diante de mim e quase me obriga a clicar. E cadê o celular? No carro. Voltei para buscar e ela seguiu caminhando uns vinte metros a frente, parando para me esperar, achei que olhava o mar. Errei. 

Do meu ponto de vista dava para assistir a cena que ela observava – debaixo de outra árvore, uma mulher loira com um bebê. Fiz a foto da árvore e segui lentamente para encontrá-la e entrarmos no restaurante. Quando cheguei, tive a sensação de entrar na cena errada, sem entender direito. Fui imediatamente roubada por um tipo de surdez na visão, quando percebi que a loira tentava colocar um casaquinho no bebê, desses de capuz, que já vem apertadinho de fábrica e que fazia esse movimento sem um pingo de paciência e com certa raiva nesse gesto, exigindo que o pequeno parasse de chorar. Acho que ele não entendia direito o que ela dizia, porque continuava a chorar, e eu na imensa dificuldade de saber quem de fato ali era o bebê porque tenho faro fino para desamparos. Coisa de proteção da espécie.

Esses segundos abriram nossa janela da eternidade, suficiente para chegar, cada uma de nós e a seu jeito, aos limites das crianças que habitam nosso interno universo. Seguimos silenciosas até a porta do restaurante e foi no nosso abraço de salvamento e o sussurrar dos votos de que aquela loira aprenda a arte da delicadeza e consiga superar o seu próprio abandono em pequenos gestos de amor, já que aquele bebê vai fluir no próprio movimento da vida e vai aprender sozinho a se abrigar do frio, que nos reconectamos ao nosso presente.  

Nessa passarela de pouco mais de trinta metros, a vida passou trazendo da leveza de um Monet no prata das águas, ao inferno de Dante desse movimento sem contorno. Sábado foi dia de aprender que o contraste da beleza é o desamor. Vida-que-segue.

A Linda Árvore e o Mar Tranquilo com pontinhos prateados.
Foto: Linda Raquel Benitez

3 Comments

  • Postado novembro 22, 2019 9:06 pm 0Likes
    Silvia benites

    Amo td q escreve. Admiradora incondicional

    • Postado novembro 23, 2019 7:13 am 0Likes
      Sonia Shimoyama

      Corpo-alma… assim são suas palavras carregadas de emoção… que nos leva a pensar sobre o dualismo de nossos dias.
      ‘Vida-que-segue’ com emoção ou sem emoção?
      Decisão única e exclusiva de cada um de nós!
      E, perceber a beleza da Vida.

  • Postado novembro 22, 2019 10:35 pm 0Likes
    Eristom Gonçalves

    Espontâneo e envolvente.

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